CANTO DOS EXILADOS
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Karl Lieblich

Advogado, escritor
Stuttgart 1/08/1895 - Stuttgart 1/03/1964
No Brasil, de 1937 a 1958

Lieblich trabalhou como advogado em Stuttgart e escrevia críticas
teatrais para o jornal Münchner Neueste Nachrichten, tendo publicado
as novelas Die Traumfahrer (Jena, 1923); Die Welt erbraust (Jena,
1924); Das Wiedersehn (Tübingen, 1918), e Die Pest
in Stuttgart (Tübingen, 1920), além de uma peça
teatral Das proletarische Brautpaar. Ein Volksheld
in Prosa (Jena, 1926). Em 1931 e em 1932, publicou dois
livros que tiveram grande repercussão: Wir jungen Juden.
Drei Untersuchungen zur jüdischen Frage (Nós jovens
judeus. Três ensaios sobre a questão judaica, onde Lieblich
reage ao novo ressurgimento do anti-semitismo com a proposta de uma “nação
interterritorial” dos judeus, culturalmente soberana) e Was
geschieht mit den Juden? Öffentliche Frage an Adolf Hitler (O
que acontecerá com os judeus? Questionamos publicamente Adolf
Hitler). As duas obras foram proibidas e queimadas no Terceiro Reich.
A criação da Liga para um novo judaísmo acompanhou
o propósito combativo desses dois livros. Em 1933 Lieblich foi
proibido de escrever e um ano mais tarde foi proibido de exercer sua
profissão.
Em 1937, Lieblich aprendeu o ofício de gráfico em Basiléia.
No mesmo ano, emigrou para Nova York, e em seguida, com um visto de
turista, para o Brasil. Importou da Alemanha máquinas para instalar
uma gráfica no Brasil. Sua mulher Olga e quase todas as filhas – com
exceção de uma, que foi para a Suíça -
vieram em 1938. Em São Paulo, onde a família fixou residência,
Karl Lieblich fundou uma gráfica. Alguns anos mais tarde, vendeu
as máquinas e abriu uma firma de importação e
exportação, mas continuou escrevendo poesias e novelas,
mesmo sem perspectiva de publicá-las. Segundo Olga Lieblich é pouco
provável que um poema ou uma novela tenham sido publicados no
Brasil. Os contos e novelas - escritos em geral na primeira pessoa
- relatam em estilo de crônica experiências pessoais, como
por exemplo Die Mulattenhochzeit, 30 Contos. Eine Geschichte
aus Brasilien e Denkmal des Brasilianers
Antonio Coutinho, des Nichtbettlers ou então narram
histórias de amor em estilo romântico como, por exemplo, Sie
kam aus Argentinien. Brasilianische Novelle.
Em seu espólio no arquivo literário de Marbach há uma
série de poemas, infelizmente sem data, esboços para
dramas e textos autobiográficos. Nos textos reconhecidamente
produzidos no Brasil, Lieblich não passa do plano das memórias
ou da crônica de costumes para um nível literário
mais exigente.
Assim como outros escritores, Lieblich, que poderia eventualmente ter
alcançado um sucesso modesto na Alemanha, ressentiu-se, no exílio,
da perda do ambiente literário e da língua, e não
se destacou nem como advogado, nem como escritor. “Meu marido
teve grandes dificuldades (...) Ele também não dominava
muito bem o português”, contou a mulher, Olga, em entrevista
a Izabela Kestler. Como, em seu caso, não existiam condições
para uma integração bem-sucedida e como tinha saudades
de Stuttgart, Lieblich voltou para sua antiga pátria. Depois
de várias viagens, entre 1948 e 1957, retornou definitivamente
com sua esposa em 1958, mas sofreu o destino de muitos dos que retornaram:
não conhecia praticamente mais ninguém.
Fonte: Izabela Maria Furtado Kestler, Exílio
e Literatura,São
Paulo: Edusp, 2003.
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