CANTO DOS EXILADOS


Otto-Maria Carpeaux
(Otto Maria Karpfen)

Escritor e jornalista
Viena, 9 de março de 1900 - Rio de Janeiro, 3 de fevereiro de 1978
No Brasil, de 1939 a 1978


Junto com Anatole Rosenfeld e Paulo Rónai, Carpeaux pertence à chamada Santíssima Trindade da vida intelectual brasileira. Devido às suas atividades de intermediação no campo literário, os três influenciaram de forma duradoura a vida cultural brasileira, até então voltada para a França.

Ideólogo clerical do austrofascismo, que considerava a Igreja um baluarte contra o nacional-socialismo, o capitalismo e a revolução, Carpeaux viu-se obrigado a fugir da Áustria após a anexação – primeiro, para a Itália e, em 1938, para a Bélgica. Em Antuérpia, onde aprendeu rapidamente a língua flamenga, trabalhou como redator da Gazeta de Antuérpia. Em 1939, por intermédio do religioso Ambros Piffig de Utrecht e no âmbito da Ação Brasil, Carpeaux e sua mulher conseguiram um visto para católicos “não-arianos”.

No Brasil, Carpeaux foi primeiro para Rolândia e logo depois para São Paulo. Posteriormente, Carpeaux sempre declarou ter vindo ao Brasil com a intenção de permanecer definitivamente. Mas em carta de 29 de novembro de 1939, postada em Rolândia, onde Carpeaux ficou alguns meses, dirigida a Martin Fuchs, dirigente do Service National Autrichien em Paris, Carpeaux lamenta não poder retornar à Europa por causa dos problemas materiais e das dificuldades com o passaporte. A seguir, frisa seu interesse em participar da causa austríaca. Em outra carta, de 21 de janeiro de 1940, provavelmente também dirigida a Fuchs, afirma: “Não tenho a intenção de ficar aqui até o fim da guerra.” Nas duas cartas, Carpeaux exprime sua insatisfação com sua situação no Brasil e manifesta o desejo de que seus amigos austríacos e correligionários políticos o retirem do Brasil.

Karpfen, que se transformou em Carpeaux, tornou-se no Brasil um dos mais importantes críticos literários brasileiros, considerado um mestre por muitos intelectuais brasileiros.

No início, escrevia artigos em francês, mas logo passou a escrevê-los em português, que só aprendera aos 40. A partir de 1941, tonou-se redator do Correio da Manhã. Sua obra abrange numerosos livros, entre eles uma história da literatura ocidental em oito volumes, além de cerca de 500 ensaios. Carpeaux participou ainda da redação e edição de enciclopédias ( Larousse e Mirador), e dirigiu as bibliotecas da Faculdade de Filosofia (1942-1944) e da Fundação Getúlio Vargas (1944-1949), ambas no Rio de Janeiro. Em 1942 e 1943, publicou dois livros de ensaios, A cinza do purgatório e Origens e fins.

Com Carpeaux, a literatura da Europa Central - Alemanha, Áustria e Europa Oriental - entrou em evidência. Também as idéias políticas de Carpeaux sofreram uma virada no Brasil. Em 1964, o antes entusiasmado adepto do austrofascismo tornou-se um opositor decidido do golpe militar. Até sua morte, Carpeaux foi um combatente pela liberdade de expressão e pela democracia.

Fonte: Izabela Maria Furtado Kestler, Exílio e Literatura,São Paulo: Edusp, 2003.