CANTO DOS EXILADOS

Wilhelm (Willy) Keller

Diretor de teatro, escritor, jornalista, tradutor
Konstanz, 9/6/1900 - Rio de Janeiro, 24/04/1979
No Brasil, de 1935 a 1979


Fundador do Instituto Cultural Brasil-Alemanha, Willy Keller é um dos personagens mais importantes do exílio brasileiro. Na Alemanha, trabalhou a partir de 1921 em diversos teatros, por último - de 1932 a 1934 - como diretor de teatro em Osnabrück. Denunciado por ser antinazista e ameaçado de prisão pela Gestapo, veio com a família para Porto Alegre, onde morava um tio de sua mulher. Trabalhou sem remuneração na fábrica de espelhos pertencente ao tio de sua mulher, enquanto ela tinha um emprego mal remunerado como correspondente comercial em idioma alemão. Em Porto Alegre, Keller também se tornou redator do jornal antifascista Aktion publicado por Friedrich Kniestedt.

Depois de seis meses, Keller viajou com um navio carvoeiro para o Rio de Janeiro, para procurar emprego como diretor na produtora de filmes Atlântida ou em outro lugar. Numa longa carta datada de 12 de fevereiro de 1937 fez um relato amargurado a seu amigo Hans Rothe sobre a falta de perspectivas profissionais:
“ Quando cheguei ao Brasil, tinha a esperança de que aqui existisse uma cultura teatral primitiva ou pelo menos uma indústria cinematográfica.  E que seria apenas uma questão de tempo até que eu pudesse, de alguma maneira, voltar à  minha antiga profissão. Sonhos vãos. Até que o Brasil tenha criado os pressupostos para uma cultura teatral própria, muitas gerações terão passado. Aqui não posso ficar famoso, e nem sequer conseguir uma modesta posição como professor.”

Keller se muda em 1936 para São Paulo, onde trabalha até 1939 como contador num grande restaurante. Quando se recusa a prestar juramento de obediência ao Terceiro Reich num navio alemão ancorado fora das águas territoriais brasileiras, é sumariamente despedido.

“A partir desse momento minha família estava à beira da ruína total. Em seguida, mudamos para o Rio de Janeiro, onde encontramos  abrigo na casa de minha cunhada. Minha mulher conseguiu achar emprego, eu não. Com o primeiro salário dela, alugamos uma casinha, naquela época ainda a preços módicos. Nossa primeira mesa foi um caixote virado, nossas primeiras cadeiras quatro caixotes, nossa primeiras camas, tábuas de caixotes pregadas. Eu cuidava dos afazeres domésticos nessa época. No começo, essa troca de papéis não fez bem nem a mim nem a minha mulher. Entretanto conseguimos sobreviver graças a algum acaso que não sei explicar. Já se passaram 32 anos e resignei-me ao meu destino”, disse em entrevista a Werner Röder, em 1971.

Em 1940, Keller entrou em  contato como grupo Das andere Deutschland (A outra Alemanha), de Buenos Aires. Alguns anos mais tarde, iniciou a atividade político-jornalistica com a Notgemeischaft deutscher Antifaschisten (Associação de Emergência dos alemães antifascistas),que atuava em estreito contato com o grupo acima, bem como com o círculo em torno de Friedrich Kniestedt, em Porto Alegre. Além disso, fundou a Notbücherei deutscher Antifaschisten (Livraria de emergência dos alemães antifascistas), que viria a editar a única obra do exílio brasileiro. Provavelmente por falta de recursos, ele não pôde editar nenhuma outra obra, nem mesmo as suas.

A atuação de Keller no teatro brasileiro começou já antes do fim da guerra, destacando-se aqui a sua participação como ensaiador do Teatro Experimental do Negro no final dos anos 40. Somente após 1946, Keller pôde fazer teatro em língua alemã.

Em 1957, Keller fundou o Instituto Cultural Brasil-Alemanha, que dirigiu até 1969. A partir de 1973 dirigiu o teatro amador da casa do estudante do Brasil. Todas essas atividades foram reconhecidas por meio de prêmios e de homenagens, mas não lhe garantiam a sobrevivência. No entanto, Keller recebeu muitos prêmios e inúmeras medalhas pela sua atividade como diretor teatral. Tornou-se Carioca Honorário em 22 de janeiro de 1957, recebeu a Ordem do Mérito, 1ª classe do presidente da República Federal  da Alemanha, Luebke em 22 de fevereiro de 1963, o ordem do Cruzeiro do Sul, grau  oficial em 22 de maio de 1968, o troféu Estácio de Sá para música erudita em 1969*.

Outra atividade de Keller foi a tradução. Traduziu poesias de autores brasileiros para o alemão e organizou uma antologia que é publicada na Alemanha. (...) Datam também desta época suas traduções de Graciliano Ramos, sua versão do Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, e suas traduções de Pedro Bloch.

Parece que Willy Keller nunca cogitou voltar à Alemanha. “ Nesse país, Brasil, cuja língua não acreditei jamais  poder entender ou falar, descobri que minha pátria não é o solo alemão, que supostamente levamos grudado aos nossos sapatos, mas a língua alemã (...) A luta para aprender uma língua estrangeira e a luta para não esquecer a língua materna tornaram-se o conteúdo real da minha vida”, escreveu ele em Exiltheater Rio de Janeiro.

*Carta de Ellen Keller.

Fonte: Izabela Maria Furtado Kestler, Exílio e Literatura, São Paulo: Edusp, 2003.